sábado, 6 de março de 2010

          Meu grande amigo Marco Adolfs, escritor renomado, produtor de Tv e homem culto, escreveu uma crônica muito bonita, sobre um dos nossos mais antigos clientes e, com certeza, um dos maiores poetas amazonenses. Pessoa muito peculiar, de trato difícil, Luiz Bacellar encontra-se no ocaso da vida, mas com muita lucidez, como se comprova na crônica, a seguir.


A LUZ DO BACELLAR



Por Marco Adolfs

          Um dia desses encontrei o poeta Bacellar, pela enésima vez, diga-se de passagem, sentado a uma mesa estrategicamente localizada de um café do Millennium Center. Estava a esperar o tempo passar para poder voltar ao seu apartamento do centro --- que, por uma dessas desgraças da vida está sem a energia elétrica ligada já faz algum tempo ---, e então se entregar aos braços de Morfeu.

          O homem que descreveu de forma bem poética e metafórica, em seu livro de poesia Sol de Feira, que uma rodela de abacaxi parece um sol em miniatura, vive na escuridão.

          --- Não tem graça, eu chegar cedo e ficar na escuridão e no calor, por isso vivo nas ruas o máximo que posso até o sono chegar --- comentou o Bacellar, já dentro do meu carro, em uma das enésimas caronas que já lhe proporcionei nesta vida. Com o maior prazer, diga-se de passagem.

          Sentar perto do Bacellar para tomar café; levá-lo no carro, para lá e para cá, tem sempre uma aula de sabedoria que ele vai lhe fornecer. De graça. O homem é um poço de sabedoria de onde sempre sai uma luz de conhecimentos mil.

          Continuemos...

          No café do Millennium, quando nos aproximamos, eu e a Dora, por algum motivo obscuro (talvez pensasse que eu fosse judeu) o Bacellar olhou para mim e começou a falar da Menorah que viu, em uma das ruínas de Roma, em forma espiralada. Uma Menorah (a Menorah para quem não sabe ou não lembra, é aquele objeto simbólico judaico em forma de candelabro e que tem sete braços de luz saindo de uma haste central e mais três braços de cada lado) que se destacava alçada aos céus por uma forma de energia espiralada.

          Do pouco que eu me lembro, a primeira Menorah teria sido feita para o Tabernáculo por um tal de Bezalel, obedecendo as instruções de Moisés. E confesso ainda a minha ignorância relativa ao confundir a coluna que o Bacellar falou ter encontrado, com outra coluna que vi em Roma, mas essa no Fórum Romano, e que mostrava um livro aberto (livro em sentido figurado, pois era um papiro em forma de rolo) com uma Menorah em forma de concha.

          Não preciso dizer que o Bacellar começou a nos dar uma aula sobre judaísmo e a me fazer ter que relembrar algumas informações que já havia arquivado na minha inconsciência de escritor atarefado.

          Mas tanto ele falou sobre aspectos do judaísmo que desconfio que o Bacellar seja um judeu disfarçado, em vez de descendente de índios e nobres franceses, segundo ele propala. Desconfio mesmo é que seja um sábio rabino disfarçado de profano para melhor se fazer passar, nesse mundo quase sem luz sobre o qual vivemos, tal o grau de conhecimento de judaísmo que o mesmo professa.

          Todos conhecemos um pouco sobre a sabedoria judaica que permeia a nossa existência. Haja vista a Cabala que a Madona popularizou. Mas de judaísmo, sabe o Bacellar mais do que muito judeu estabelecido. Quando toquei no assunto do Sepher Yetzirah --- o grande livro cabalístico da criação ---, o Bacellar falou sobre os comentários feitos no mesmo.

          --- Desconfio que sei muito mais sobre judaísmo que muito judeu que existe por aí --- comentou então, o confiante Bacellar.

          Esse Bacellar...

          Após escutar a sua aula sobre Lazarones e Matarazos (já no carro o Bacellar falava sobre os perigos de Roma), ele pediu que nós o deixássemos na lanchonete do Pina, estabelecimento comercial do nosso amigo Francisco, para que pudesse aproveitar um pouco mais o tempo, antes de voltar para a sua escuridão e poder dormir no calor inevitável do seu quarto.

          --- Mas, Bacellar, como o senhor faz para ler!? --- perguntou Dora, ao saber da tal escuridão.

          --- Não faço nada --- respondeu humildemente. --- Mas, quando tinha luz, a esta hora eu estaria lendo um bom livro --- observou, resignado, o poeta das metáforas luminosas.

          --- Vá com Deus, Bacellar! --- disse, enquanto lhe cumprimentava, me despedindo.

          --- E você fique com ele --- respondeu, antes de desaparecer no interior luminoso da lanchonete.

          “Não podem desligar a luz de um homem desses...; é impossível”, pensei, antes de voltar ao meu carro.

          Dei partida no veículo, acendi os faróis e parti. Mas, pensei ainda, naquela noite Manaus parecia ter ficado mais escura.

Nota do Blog - A luz do Bacellar foi religada esta semana, por diligência do Zemaria Pinto.
                        Fiat Lux...

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